Como Descobrir a Vocação Aos 40+ (E Por Que Não É Tarde)
Tem uma vergonha pouco discutida no meio cristão: a de chegar aos quarenta e ainda não saber o que Deus quer da sua vida. A pregação evangelística se concentra nos jovens. Os livros de propósito vendem pra universitário. Os retiros de chamado lotam de gente entre vinte e trinta. E o que fica é a impressão de que aos quarenta o jogo já era — você ou descobriu seu chamado, ou ficou pra trás. Esse pillar vem dizer o oposto. A maior parte da Bíblia mostra Deus chamando gente já feita, gente cansada, gente que achava que tinha deixado o trem passar. Os quarenta são, na verdade, o momento bíblico clássico de início, não de fim. “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu.” · Eclesiastes 3:1 Os quarenta como idade bíblica de chamado Vale começar olhando o calendário bíblico. Moisés foi chamado aos oitenta. Antes disso, gastou quarenta como príncipe egípcio em formação que ele achou ser o chamado, e quarenta como pastor de ovelhas no deserto achando que tinha falhado. Quando Deus apareceu na sarça, Moisés tinha cabelo branco e uma carreira terminada nas costas. Foi aí que começou. Abraão recebeu o chamado de sair de Ur aos setenta e cinco. José assumiu o governo do Egito aos trinta, mas só depois de treze anos preparatórios. Davi reinou aos trinta, mas com vinte anos de fuga e amadurecimento antes. Josué tomou Canaã aos oitenta e tantos. Calebe pediu sua montanha aos oitenta e cinco e a conquistou. Pedro recebeu o ministério público com idade próxima dos trinta, mas só depois da queda e da restauração na praia. Tem um padrão: Deus prefere chamar quem já viveu, quem já caiu, quem já desistiu de si. Não porque os jovens não servem — Davi foi chamado adolescente, Daniel foi exilado adolescente. Mas porque o tipo de chamado que aparece na maturidade tem uma consistência que o chamado da juventude geralmente não tem. O chamado dos quarenta é menos sobre energia e mais sobre profundidade. Menos sobre construir império e mais sobre carregar peso. Menos sobre ser visto e mais sobre fazer diferença em vida real. “Andou Enoque com Deus; e já não era, porque Deus o tomou para si.” · Gênesis 5:24 Por que tantos chegam aos quarenta sem saber o chamado Vou ser direto sobre as causas. A primeira é confusão entre carreira e chamado. Carreira é o que você faz pra ganhar dinheiro. Chamado é a contribuição específica que Deus colocou em você pra dar ao mundo. Os dois podem coincidir, e às vezes coincidem perfeitamente. Mas com frequência, especialmente em gerações mais novas, a carreira foi construída por critérios externos — o que dava dinheiro, o que os pais queriam, o que era seguro — e o chamado nunca foi investigado a sério. A segunda causa é teologia errada de chamado. Tem cristão que cresceu achando que chamado é só pra pastor, missionário, evangelista. Quem virou engenheiro, médica, comerciante, advogada, pedreiro, secretária, pensa que tem “trabalho secular” e que precisa do tempo livre pra “fazer obra de Deus”. Essa divisão sagrado-secular é falsa, e desonra a doutrina bíblica de vocação. Toda profissão honesta pode ser feita como serviço a Deus. O médico que cuida bem do paciente faz obra de Deus. A mãe que cria filhos com sabedoria faz obra de Deus. O caminhoneiro que entrega no prazo faz obra de Deus. A terceira causa é a comparação. Você olha pra colega de igreja que parece ter “encontrado o chamado” — virou líder de ministério, escreveu livro, tem programa. E você acha que a sua vida ainda não decolou. Mas o “chamado” dela é visível, e o teu pode ser invisível, e nem por isso menor. Mãe de quatro filhos que cria todos no temor de Deus tem chamado tão alto quanto pastor de mega-igreja. O Reino é avaliado por critérios diferentes do espetáculo religioso. “Faze tudo o que tiveres em mãos para fazer com toda a tua força.” · Eclesiastes 9:10 O chamado se descobre olhando pra trás, não só pra frente Tem uma sabedoria que poucos pastores conseguem comunicar: o chamado raramente é visão futurística que cai do céu. Geralmente, o chamado é o nome que você dá pra um padrão que já existe na sua vida e que você não tinha percebido. Olha pros últimos vinte anos. Que tipo de coisa as pessoas sempre te procuravam pra fazer? Que tipo de problema você resolve com facilidade que pra outros é difícil? O que te dá uma alegria estranha mesmo cansado? Em que momento da semana você sente que está mais alinhado com algo maior que você? O chamado costuma estar escondido nas perguntas: o que você faria de graça se ganhasse loteria amanhã? O que te indigna no mundo de um jeito que outros são indiferentes? Que tipo de pessoa você atrai naturalmente — quem busca você pra conselho, pra desabafo, pra ajuda? Quais foram os três momentos da sua vida em que você sentiu “fui feito pra isso”? Esses momentos não são acaso. Geralmente, eles formam um padrão que aponta pra contribuição específica que Deus desenhou em você. A maturidade dos quarenta tem vantagem aqui: você tem dado suficiente. Não precisa adivinhar o que é seu. Precisa olhar e ler. Faça o exercício: liste os dez momentos da sua vida em que sentiu mais vivo e mais alinhado. Pergunte o que esses momentos têm em comum. Provavelmente vai surgir um tema. Esse tema é mais próximo do seu chamado do que qualquer dom que apareceu em teste de igreja. “Bem conhecidas são a Deus, desde a eternidade, todas as suas obras.” · Atos 15:18 O luto do chamado que não foi Antes de descobrir o chamado dos quarenta, muitos precisam fazer um luto: o luto de uma versão da vida que não aconteceu. Você imaginou aos vinte que aos quarenta seria diretor da empresa, autor publicado, missionário no Japão, dona de um instituto, casado com filhos … Ler mais