O conhecimento de Deus aprofundado é o cerne do que A. W. Tozer chamava de a busca de Deus. Não basta saber doutrina correta. Tem cristão com Bíblia inteira na cabeça e Deus ainda distante do coração. Tem cristão que decora pouco mas tem intimidade rara. O conhecimento bíblico integrado de Deus envolve as duas dimensões. Esse texto desenvolve a integração com seriedade pastoral.
“Para o conhecer, e à virtude da sua ressurreição, e à comunhão de suas aflições.” · Filipenses 3:10
Conhecer pela ressurreição e pela aflição
Filipenses 3:10 traz o desejo paulino completo. Conhecer Cristo pela virtude da ressurreição (poder, glória, vida nova) e pela comunhão das aflições (sofrimento compartilhado, identificação com a cruz). As duas dimensões. Cristão que só conhece pela ressurreição vira otimista superficial. Cristão que só conhece pela aflição vira sofredor crônico. Os dois juntos formam o conhecimento maduro.
Você conhece Deus na vitória, sim. Mas conhece também na perda. Você o vê no milagre, sim. Mas o vê também no túmulo do amigo. Quem foge do segundo conhecimento perde dimensões inteiras de quem ele é. Quem aceita os dois recebe o conhecimento que os apóstolos tinham.
“Para vos dar o conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo.” · 2 Coríntios 4:6
O conhecimento que Tozer descrevia
A. W. Tozer escreveu “A Busca de Deus” (1948). O argumento dele é que a maioria dos cristãos sabe sobre Deus, mas não busca conhecê-lo experiencialmente. Tozer chamava isso de “o triste declínio de uma religião do conhecer-a-Deus para uma religião do conhecer-sobre-Deus”. A diferença é gigante. Cuidado pra não estar desse lado errado.
Como sair? Reservando tempo intencional na presença de Deus, em silêncio, sem agenda. Tozer recomendava que o cristão se acostumasse com longas pausas na oração. Não falando. Apenas presente. A maioria não suporta cinco minutos de silêncio. Mas é nesses minutos que o conhecimento profundo cresce.
Os mestres do conhecimento profundo
Dá pra aprender com cristãos que conheceram a Deus de modo profundo. Brother Lawrence, monge cozinheiro francês, escreveu sobre a prática da presença de Deus mesmo lavando louça. André Murray escreveu “Permanecendo em Cristo” como manual de intimidade. Madame Guyon, apesar de polêmica, ensinou meditação contemplativa. Henri Nouwen escreveu sobre solidão fértil.
Esses livros não são leitura de uma vez. São companheiros de muitos anos. Ler e reler com aplicação prática vale mais que ler dez livros sem voltar. O cristão sério faz biblioteca menor mas mais relida.
O conhecimento e a missão
Daniel 11:32 traz uma promessa interessante: “o povo dos que conhecem ao seu Deus se esforçará e fará proezas”. O conhecimento profundo gera coragem prática. Não fanática, mas firme. Pessoas que conhecem Deus de verdade não se intimidam fácil. Não se confundem fácil. Têm raiz.
Por isso a missão cristã séria depende de conhecedores de Deus, não de organizadores de eventos. A diferença é a profundidade que sustenta longa caminhada. Eventos passam. Conhecedores permanecem.
Como aprofundar quando estagnar
Tem fase em que você sente que o conhecimento parou. Aprendeu o que tinha pra aprender. Cuidado, pode ser ilusão. Deus é infinito. Você nunca terminou de conhecê-lo. Quando estagnar, o caminho é geralmente um destes: silêncio prolongado (retiro de vários dias), aprofundamento numa doutrina específica, ministério novo que te coloca dependente.
O Senhor frequentemente estagna o cristão na superfície pra forçar o mergulho. Quem aceita o convite, mergulha. Quem resiste, fica empacado em entusiasmo religioso de superfície. A diferença determina os próximos cinco anos da vida espiritual.
“Mas o povo dos que conhecem ao seu Deus se esforçará e fará proezas.” · Daniel 11:32
O conhecimento como humildade crescente
Sinal claro de conhecimento profundo: humildade crescente. Quanto mais você conhece a Deus, mais pequeno você se vê. Isaías em Isaías 6 viu a Deus e disse “ai de mim”. Pedro em Lucas 5:8 viu o milagre de Jesus e disse “aparta-te de mim, Senhor, porque sou homem pecador”. Ver a Deus é sempre seguido por consciência da própria pequenez.
Quando você se ouvir dizendo “eu já conheço a Deus”, desconfie. Conhecimento real produz “ainda há muito a conhecer”. A humildade no conhecimento é o oposto do orgulho do conhecimento. Cristão maduro sabe que está apenas começando, mesmo depois de quarenta anos.
Como aplicar na prática
- Reserve momentos de silêncio prolongado (no mínimo 30 minutos sem falar) duas vezes por semana para aprofundar conhecimento experiencial.
- Escolha um clássico cristão sólido (Tozer, Murray, Lawrence, Nouwen) e leia ao longo de 6 meses, reletura e aplicação.
- Quando se sentir estagnado, escolha entre retiro silencioso, aprofundamento doutrinário ou ministério novo que te coloque dependente.
- Verifique se seu conhecimento crescente está produzindo humildade crescente; sem isso, há distorção.
Versículos para memorizar
- Filipenses 3:10 — “Para o conhecer.”
- Daniel 11:32 — “O povo dos que conhecem ao seu Deus.”
- Oséias 6:3 — “Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor.”
- Jeremias 31:34 — “Todos me conhecerão, desde o menor até ao maior.”
- Salmo 46:10 — “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus.”
Oração
Pai, eu quero conhecer-te como Tozer descreveu, como Paulo desejou, como os clássicos viveram. Não apenas saber sobre ti. Conhecer-te. Pela ressurreição e pela aflição. Em silêncio prolongado e em estudo sólido. Que minha humildade cresça enquanto meu conhecimento cresce. Em nome de Jesus.